“Uda Gonzaga- a primeira-dama do Morro da Caixa” virou livro

Educadora, mulher do samba e de projetos sociais está com 83 anos de idade

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Vereadora suplente, Roseli Pereira, faz a entrega, em 2014, da medalha Zumbi dos Palmares à Uda Gonzaga _ Arquivo Roseli Pereira

A trajetória da educadora, mulher do samba e de projetos sociais Maria de Lourdes da Costa Gonzaga, a dona Uda, está estampada em livro. “Uda Gonzaga- a primeira-dama do Morro da Caixa” será lançado no dia 10 de fevereiro, às 17 horas, nos jardins do Palácio Cruz e Sousa, Centro de Florianópolis. A obrajá está em pré-venda com selo da Dois por Quatro Editora: https://www.doisporquatro.com/uda-gonzaga-a-primeira-dama-do-morro-da-caixa

A autoria do livro é do jornalista Ricardo Medeiros e da acadêmica de Jornalismo Suyane de Lima. Ricardo Medeiros foi aluno da Escola Lúcia do Livramento Mayvorne nos anos 1970, quando Uda Gonzaga era diretora da unidade educacional do Morro da Caixa da Ilha, reconhecido oficialmente como Monte Serrat.

Com 83 anos de idade, Udanasceu e vive até hoje no Morro da Caixa. Foi a primeira pessoa negra da comunidade, nos anos 1960, a se formar professora- normalista. Aos 40 anos, concluiu o curso superior de Pedagogia.

De 2 de maio de 1986 a 2 de março de 1998 foi membro titular do Conselho Estadual de Educação (CEE). Arquivo Uda Gonzaga

Tornou-se a única presidente mulher da Escola de Samba Embaixada Copa Lord, agremiação pela qual virou também tema de enredo.

Entrou para história, quando foi o primeiro negro a ser membro titular do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina. Pelo mesmo conselho ganhou o Prêmio Elpídio Barbosa, que reconhece as boas práticas em favor da qualidade da educação.
Foi uma das fundadoras do Conselho Comunitário do Monte Serrat e da Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros. Pelo seu trabalho nessa última entidade, recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares, concedida pela Câmara de Vereadores de Florianópolis.

O casal Armandino Gonzaga e Uda Gonzaga. Anos 1970. Arquivo: Uda Gonzaga

O pai de Uda era Júlio Sebastião da Costa Filho, pedreiro, dono de venda e funcionário dos Correios. A mãe, Angelina Veloso, era lavadeira.

O primeiro filho do casal foi Agenor. Em 30 de junho de 1938, nasceu Maria de Lourdes da Costa. O casal teve ainda mais três filhos: Osmarina, Doroti e Ernani.

Mundo da educação

Nos anos 1940, Udaestudou no Grupo Escolar Arquidiocesano São José.”Aquele grupo era o dos pobres, tinha o Lauro Muller, mas, era difícil pegar vaga lá. Tinha a Escola Dias Velho, que era mais difícil ainda. O pessoal aqui do morro, a maioria estudou nesse grupo São José”.

Foto de formatura em Pedagogia de Uda Gonzaga – 1978 _ Arquivo Uda Gonzaga

A distância de casa até a escola era de quase 3 quilômetros. Em alguns momentos, chegou na escola e o portão já estava fechado. “Se chegasse fora do horário permitido, tinha que falar com a direção para justificar o atraso”. Estudava das 8h ao meio-dia. Estava de retorno em casa beirando uma hora da tarde.

Os pais de Uda a incentivavam a estudar. “O que eles mais queriam era que a gente se concentrasse nos cadernos e nos livros. Os estudos eram a herança que eles gostariam de nos deixar”.

Nas décadas seguintes, foi aluna no Instituto Estadual de Educação (IEE), instituição pela qual conquistou odiploma de normalista em 1963.

No IEE, não havia professores negros, com exceção de Antonieta de Barros, que exercia o cargo de diretora do Instituto (1944-1951). Ela, filha de ex-escravos, no ano de 1934, tornara-se a primeira mulher parlamentar de Santa Catarina e a primeira negra do Brasil escolhida para um cargo público, após ter sido concedido o direito de voto às mulheres.

Uda Gonzaga foi tema da Embaixada Copa Lord em 2014. Acervo_ Uda Gonzaga.

Uda, no ano de 1964,iniciou a carreira no magistério como professora substituta na Escola Isolada do Morro da Caixa. Ficou no estabelecimento por três meses.
Naquele mesmo ano, rumou para Blumenau, pois havia passado em concurso público para ministrar aulas no Estado. As condições de trabalho não eram favoráveis. Teria que pegar ônibus às 4 horas da madrugada para chegar à escola que abriria só às 7 horas. O último ônibus de volta era às 16 horas, sendo que as aulas terminavam às 17 horas. Desistiu da vaga.

Ainda em 1964, de volta a Florianópolis, efetivou-se na Escola Isolada do Morro da Caixa. Logo assumiu o cargo de diretora. Mais tarde, o estabelecimento passou a se chamar Grupo Escolar do Morro da Caixa. Na sequência, recebeu as denominações de Grupo Escolar Lúcia do Livramento Mayvorne e Escola Básica Lúcia do Livramento Mayvorne.

Uda Gonzaga na Escola Lúcia do Livramento Mayvorne _ Arquivo Uda Gonzaga

Como única negra da turma, iniciou, em 1974, o Curso de Pedagogia na Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc.

Lá, afirma Uda, encontrou preconceito. “Na minha turma só tinha eu de negra. Então, eu sentia, a gente sente quando está sendo discriminado por colegas”.
Não sabe dizer de qual maneira. “Mas, a gente sente no bolo, no meio de todos, a gente sentia a discriminação. Dizer que eu nunca me senti discriminada? Não. Porque tem negra que diz: eu nunca fui. Não. Já me senti”.

No dia 29 de Julho de 1978 foi diplomada com habilitação em administração escolar.
Em 2 de maio de 1986 Uda foi o primeiro negro a ser membro titular do Conselho Estadual de Educação (CEE), ficando no cargo até 2 de março de 1998.

No ano de 2008, voltou a ser protagonista. Era também o primeiro negro a receber o Prêmio Elpídio Barbosa, pelo CEE.

Dona Uda, aos 72 anos de idade, aposentou-se compulsoriamente do magistério no dia 9 de julho de 2010.

Mundo do samba

Em 5 de junho de 1965 casou-secom Armandino Gonzaga, que na época já estava na presidência da Escola de Samba Embaixada Copa Lord. O marido faleceu em 1978, aos 40 anos, vítima de edema agudo de pulmão, causando comoção na comunidade.O carro da funerária não pôde subir o morro. O caixão contendo o corpo do presidente foi levado pelos braços de parentes e amigos até a Rua Major Costa, distante da sede uns 300 metros. Nesse percurso rezou-se um pouco. Mas a reza, deu espaço ao hino da escola: Quem vem lá/De amarelo, vermelho e branco/Levantando a poeira do chão?É a Copa Lord, do Morro da Caixa…..

Durante os anos de1984 e 1985, Uda Gonzaga comandou a Embaixada Copa Lord. Foi convidada para a presidência por um grupo da diretoria. Como resposta, ela falou que não tinha a experiência do marido. “Propus que fizessem uma eleição na comunidade. Meu nome foi aceito por todos”. Foi a única mulher da entidade a assumir tal cargo.

Pela agremiação, em 2014, foi reverenciada com o enredo: Quem você pensa que é sem a força da mulher?”

Mundo social

Maria de Lourdes da Costa Gonzaga , em 1978, foi uma das responsáveis pelo surgimento do Conselho Comunitário do Monte Serrat.

Em 1985 auxiliou na fundação do Grupo de Mulheres Negras, que anos depois se transformou na Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros (AMAB). Por essa entidade, recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares, pela Câmara de Vereadores de Florianópolis

Colocou em prática, em 2006, o projeto Livros e Batucadas, com os cursos de Administração de Empresas e de Música, ambos da Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc. O projeto criou a bateria mirim da Copa Lord.

LINHA DO TEMPO

-1º de julho de 1915- Nasce Júlio Sebastião da Costa Filho, futuro pai de Maria de Lourdes da Costa

-6 de agosto de 1918- Nasce Angelina Veloso, futura mãe de Maria de Lourdes da Costa

-30 de junho de 1938- Depois de Agenor, nasce Maria de Lourdes da Costa, filha do casal Júlio, pedreiro, e Angelina, lavadeira. A filha cresceu e vive até hoje no Monte Serrat, popular Morro da Caixa. O casal teve ainda mais três filhos: Osmarina, Doroti e Ernani.

-Anos 1940- Uda estuda no Grupo Escolar Arquidiocesano São José.

-Anos 1950-1960- Período de estudos no Instituto Estadual de Educação (IEE).

-1963- Recebe o diploma de Normalista no IEE.

-1963-Armandino Gonzaga, noivo de Uda, sai da Escola de Samba Protegidos da Princesa e passa integrar a Embaixada Copa Lord.

1964- Armandino é eleito presidente da amarelo, vermelho e branco, cargo que ocupará por quase 14 anos.

-1964-Uda inicia carreira no magistério como professora substituta na Escola Isolada do Morro da Caixa. Fica no estabelecimento por três meses.

-1964-Segue para Blumenau, pois havia passado em concurso público para ministrar aulas no Estado. As condições de trabalho não eram favoráveis. Teria que pegar ônibus às 4 horas da madrugada para chegar à escola que abriria só às 7 horas. O último ônibus de volta era às 16 horas, sendo que as aulas terminavam às 17 horas.

-1964- Consegue uma vaga como efetiva na Escola Isolada do Morro da Caixa. Logo assume o cargo de diretora. Mais tarde, o estabelecimento passa a se chamar Grupo Escolar do Morro da Caixa. Na sequência recebe as denominações de Grupo Escolar Lúcia do Livramento Mayvorne e Escola Básica Lúcia do Livramento Mayvorne.

-5 de junho de 1965- Casa-se com Armandino Gonzaga.

-1974-Como única negra da turma, inicia o Curso de Pedagogia na Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc.

-29 de Julho de 1978- É diplomada no Curso de Pedagogia, habilitação em administração escolar.

-25 de agosto de 1978- Morre Armandino Gonzaga, vítima de edema agudo de pulmão.

-1978-Uda Gonzaga é uma das responsáveis pelo surgimento do Conselho Comunitário do Monte Serrat.

-1984-1985- Uda Gonzaga é presidente da Escola de Samba Embaixada Copa Lord

-1985- Ajuda a fundar o Grupo de Mulheres Negras, que anos depois iria se transformar na Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros (AMAB)

-2 de maio de 1986- Entra para história. Primeiro negro a ser membro titular do Conselho Estadual de Educação. Fica no cargo até 2 de março de 1998.

-2006-Coloca em prática o projeto Livros e Batucadas, com os cursos de Administração de Empresas e de Música, ambos da Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc. O projeto auxiliou na formação da bateria mirim da Copa Lord.

-2008-Primeira negra a receber o Prêmio Elpídio Barbosa, pelo Conselho Estadual de Educação.

-9 de julho de 2010- É aposentada compulsoriamente do magistério aos 72 anos de idade.

-1º de março de 2014-É homenageada pela agremiação, no sambódromo, com o enredo “Quem você pensa que é sem a força da mulher?”

-17 de novembro de 2014-Em nome da Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros (AMAB) recebe a Medalha Zumbi dos Palmares, pela Câmara de Vereadores de Florianópolis.

-30 de junho de 2021- Maria de Lourdes da Costa Gonzaga, a dona Uda, completa 83 anos de idade.

-30 de novembro de 2021- a primeira dama do Morro da Caixa recebe o diploma “Moção de Aplauso”, da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, pela dedicação e iniciativa em busca de inclusão social e ações afirmativas.

Sobre o livro

Título: Uda Gonzaga: a primeira-dama do Morro da Caixa
Autores: Ricardo Medeiros e Suyane de Lima
Editora: Dois por Quatro
Número de páginas: 120
Ano: 2022.
Preço: R$ 35,00, até 9 de fevereiro; R$ 39,90 , após essa data.
Como comprar: https://www.doisporquatro.com/uda-gonzaga-a-primeira-dama-do-morro-da-caixa ou pelo telefone: 48-984-09-8222

Ricardo Medeiros e Suyane de Lima, autores do livro

Perfil de Ricardo Medeiros

Estudou durante o primário na Escola Lúcia do Livramento Mayvorne, no popular Morro da Caixa do Centro de Florianópolis, de 1971 a 1974.
Foi o terceiro negro a cursar Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (1983-1986).

É o primeiro negro doutor em rádio de Santa Catarina. Realizou a sua tese na França, na Univeristédu Maine, atual Le Mans Université. Por ter finalizado o trabalho acadêmico em apenas dois anos, recebeu daquela instituição autorização especial para defender a pesquisa antes do tempo programado. Obteve nota máxima da banca examinadora.

Este é o 10º livro escrito por Ricardo Medeiros, filho do preto retinto Sebastião Florêncio de Medeiros e de Margarida Leandro de Medeiros, de origem alemã.
Nascido em 4 de setembro de 1963, em Joaçaba (SC), começou a trabalhar com jornalismo em 1985. Passou por diversos veículos de comunicação, assim como ministrou aulas em entidades de ensino superior.

Perfil de Suyane de Lima

Nascida em Xanxerê, Oeste de Santa Catarina, no ano 2000, mora em Florianópolis desde a infância. É acadêmica de Jornalismo pelo Centro Universitário Estácio SC e faz estágio na Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Educação da Capital.

Gasta sola de sapato para apuração e pesquisa jornalística, como para a composição deste livro. Conheceu Ricardo Medeiros na Prefeitura Municipal de Florianópolis e admira imensamente os trabalhos feitos por ele e sua história de vida e superação.