Floripa está dois anos à frente nas metas para valorização de resíduos orgânicos

Resultados de projeto com recursos do governo federal foram compartilhados com municípios da região em evento da Granfpolis

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Florianópolis está dois anos adiantada em relação às metas nacionais do Plano Nacional de Resíduos Sólidos para valorização de resíduos orgânicos. Com a coleta seletiva de mais de 7 mil toneladas de restos de alimentos e resíduos verdes por ano, a capital já desvia do aterro sanitário 13,54% do potencial de compostáveis, atendendo requisito da política nacional previsto para 2024. A informação foi compartilhada pela coordenadora técnica do projeto “Ampliação e Fortalecimento da Valorização de Resíduos Orgânicos no município de Florianópolis” na Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smma), Karina da Silva de Souza, durante evento sobre sustentabilidade na Granfpolis.

A engenheira sanitarista e mestre em engenharia ambiental pela Ufsc e a gerente de Planejamento da Superintendência de Gestão de Resíduos da Smma, Daiana Bastezini, apresentaram os resultados e desdobramentos do projeto contratado pela Prefeitura de Florianópolis em 2018. Depois que a então Comcap venceu em segundo lugar o edital do Fundo Nacional de Meio Ambiente teve R$ 987 mil em recursos para educação ambiental e ativação de sistemas de compostagem viabilizados pelo acordo de cooperação financeira com o Fundo Socioambiental Caixa.

“O projeto foi a sementinha que impulsionou os sistemas de valorização de resíduos orgânicos que há hoje em Florianópolis. Com projetos como o Minhoca na Cabeça, de compostagem domiciliar, coleta com bombonas, coleta com caminhão satélite e coleta dos verdes de jardins. Ao longo de 2021 e de 2022, estamos recuperando quase 14% da fração orgânica dos resíduos gerados na cidade, evitando que sigam para o aterro sanitário”, apontou Karina.

Elogios pela abrangência

A analista do Departamento de Gestão Estratégica do Ministério do Meio Ambiente Bianca Oliveira Medeiros, que fiscaliza o projeto desde a contratação até março, quando deverá ser concluído, esteve em Florianópolis para visitação aos pátios e participação no seminário. A técnica disse que Florianópolis se destaca pela abrangência das ações de valorização de resíduos orgânicos, com compostagem nas linhas domiciliar, comunitária e institucional. O MMA analisa as ações municipais e em nenhum outro a atuação pública é tão ampla. “Floripa se destaca porque atende praticamente o município inteiro. Embora seja um município com peculiaridades geográficas e extenso, a Prefeitura trabalhou muito bem a questão da logística, para implantar cada tipo de coleta e de compostagem de acordo com o bairro e com a finalidade. Isso foi muito importante, foi um sucesso realmente”, aprovou.

Comunidade protagoniza

Os resultados da política pública de valorização de orgânicos são protagonizados pela comunidade em Florianópolis. No primeiro painel, foram apresentadas iniciativas como o Pacuca e Revolução dos Baldinhos, que receberam incentivos por meio de bolsas e equipamentos, depois Pacuca e Composta Aí que também passaram a receber pagamentos da Prefeitura de Florianópolis por serviços de compostagem. No segundo painel, as experiências do condomínio residencial Costa Sul, no Itacorubi, e loteamento Portal do Ribeirão, no Sul da Ilha de SC.

Cíntia Cruz, da Associação Revolução dos Baldinhos, lembrou que a comunidade do complexo Monte Cristo, que agrega 12 comunidades e 35 mil pessoas, abraçou o projeto de valorização de orgânicos há 14 anos. O Revolução já atendeu quatro comunidades, hoje opera em duas. “Trabalhar resíduos é trabalhar o ser humano. Mexer com compostagem é uma transmutação, aquele cheiro adocicado das leiras dignifica a alma. É quebrar o ciclo das dores, gerar mais emprego e renda, trabalhar a soberania alimentar. Floripa tem favela, temos de fortalecer essas comunidades periféricas, respeitar o meio ambiente e as vidas desafiando as causas dos impactos nos territórios. É sobre o ser e não sobre o ter”, disse Cíntia, lembrando que o Revolução dos Baldinhos abre a cidade para o ecoturismo, inclusive.

Márcia Regina Cardoso, vice-presidente da Associação de Moradores e Amigos do Loteamento Portal do Ribeirão (Amapri), reconheceu os mesmos desafios compartilhados por Cíntia para implantação de pátio de compostagem num loteamento de médio padrão. “No início, as pessoas temiam que o pátio fosse um lixão, que tivesse cheiro e roedores, então fizemos um projeto que reúne sustentabilidade, beleza e convívio social”, disse. Em área pública de 2,5 mil metros quadrados, demonstrou Márcia, está em implantação o sistema de compostagem, área de convívio e educação ambiental e horta.

O pátio de compostagem será operado em parceria com MEI Destino Certo. A horta será autossutentável, mantida em parceria com o microeempreendor, mais 30% por trabalho voluntário e 50% em sistema de recompensa para os moradores. Quem cultivar, comprará os alimentos orgânicos com desconto de metade do valor. “Hoje separamos os resíduos orgânicos porque temos o privilégio da coleta pública em quatro frações – recicláveis secos, só vidro, rejeito e orgânicos _, mas vamos evoluir para o pátio de compostagem, para o tratamento dos orgânicos no próprio loteamento. Ficaremos com nosso resíduos e daremos tratamento a ele”, orgulha-se.

Ciclo dos alimentos

Ataíde Silva, do Parque Cultural Campeche (Pacuca), que mantém sistema de compostagem e horta comunitária, destacou a importância da compostagem para recuperação e uso dos cerca de 200 espaços públicos existentes em Floripa. “Além da destinação correta para áreas públicas e da educação ambiental, a compostagem faz o trabalho do ciclo dos alimentos, que deixam de ser resíduos. A sobra do alimento vira adubo, volta a ser planta, o resto vira comida de novo. O planeta, se não reciclar não tem mais volta, e tudo pode ser reciclado”, destacou.

Gabriel Rosales, formado em Agronomia pela Ufsc, é empreendedor da Composta Aí, que mantém pátio de compostagem no Ecoponto da Smma no Morro das Pedras. Gabriel é mais um dos multiplicadores do método Ufsc criado pelo professor Rick Muller. Opera com compostagem desde 2018, no Pântano do Sul, mas de 2021 para cá, principalmente após o suporte do pagamento municipal por serviços de compostagem levou a produção de seis a nove toneladas para mais de 15 toneladas por mês.

Das 11 mil toneladas de restos de alimentos que processou desde 2019, 7 mil toneladas foram compostadas este ano no pátio do Morro das Pedras. Com o ganho de escala, Gabriel pretende atender mais clientes como restaurantes, escolas e supermercados. A entrega voluntária no Ecoponto da Smma, destaca, fornece matéria-prima de alta qualidade, praticamente sem mistura de rejeitos.

Mais limpo e organizado

A segregação dos resíduos com atenção e cuidado é o grande desafio enfrentado, com sucesso, pela síndica do Residencial Costa Sul, Aretuza Fernandes Wernz Basso. Das 108 unidades residenciais, onde moram 400 pessoas, 96% hoje participam da seletiva nas frações orgânicos compostáveis, só vidro e recicláveis mistos. O condomínio primeiro usou baldinhos reaproveitados de cloro, depois fez compra coletiva com outros 10 residenciais do bairro, quando chegaram a 11 mil baldinhos para resíduos orgânicos. “No Costa Sul, estamos caminhando para 100% de adesão. Hoje conseguimos demonstrar que é mais fácil descartar os orgânicos da forma adequada, trocando saquinhos plásticos por baldinhos nas áreas de serviço”, comentou.

A adesão à seletiva flex Floripa, destacou Aretuza, proporcionou pelo menos seis benefícios ao condomínio: maior organização, facilidade no manuseio diário do zelador, redução de custos na compra de sacos plásticos, ativação de composteiras, produção própria de composto orgânico para horta e jardim e produção de biofertilizante para uso dos moradores. Sem contar, os ganhos na relação com a equipe de zeladoria interna. “Nossos zeladores são heróis da reciclagem agora”, elogiou.

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