Apufsc-Sindical e Movimento Humaniza SC realizam ciclo de debates sobre guinada de SC à direita

Eventos serão realizados nos dias 7 e 8 de dezembro, às 18h, no auditório do CFH na UFSC

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Nos dias 7 e 8 de dezembro, como parte do ciclo de debates promovidos pelo Sindicato dos Professores das Universidades Federais de Santa Catarina (Apufsc-Sindical) e dentro da programação de eventos do Movimento Humaniza Santa Catarina, será realizado o ciclo de debates “Por que Santa Catarina votou à direita?”, no auditório do CFH, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

No primeiro dia, os debatedores são José Roberto Paludo, João Carlos Nogueira e Vladimir Milton Pomar. No segundo dia, Elson Pereira, José Álvaro Cardoso e Luciane Carminatti. Nas duas datas, o evento começa às 18h, e será transmitido ao vivo pelo canal da Apufsc no Youtube. No auditório, é obrigatório o uso de máscaras.

Conheça os debatedores

José Roberto Paludo é doutor em Sociologia Política, professor do mestrado em Práticas Transculturais na Unifacvest (Lages/SC), coordenador do MBA em Inovação da Gestão Pública da Faculdade Santo Ângelo, professor do curso de Administração na Univali (São José/SC),do curso de Filosofia na Unisul Virtual (Palhoça/SC) e de História no ensino médio na rede pública estadual de SC.

João Carlos Nogueira é graduado em Ciências Sociais, foi coordenador e pesquisador do Núcleo de Estudos Negros (NEN) nas áreas de Educação, Cultura e Trabalho  entre 1994-2003, subsecretário de Relações Institucionais da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) do Governo Federal entre 2003 e 2004, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) entre 2007 e 2009, e secretário Executivo do Ministério de Promoção da Igualdade Racial do Governo Federal entre 2011 e 2013.

Vladimir Milton Pomar é coordenador de Parcerias Institucionais do Instituto de Estudos sobre a China da UFSC (Ichin/UFSC). É pesquisador associado do Centro de Estudos da Ásia da Universidade Federal de Pernambuco (Ceasia/UFPE) e da Rede China Y America Latina (Redcaem). É colunista do blog “Conexão Ásia”, do Portal e Revista Amanhã desde 2007. É consultor de relações institucionais China-Brasil.

Elson Pereira é professor, engenheiro civil, urbanista, e em 2020 foi candidato a prefeito de Florianópolis pelo PSOL.

José Álvaro Cardoso é economista, doutor em Ciências Humanas pela UFSC, supervisor técnico do escritório regional do Dieese em Santa Catarina.

Luciane Carminatti é formada em Pedagogia e especialista na área de Educação Especial e em Orientação Educacional. Foi vereadora por dois mandatos (2000-2004/2008-2011) e secretária municipal da Educação em Chapecó (2001-2003). Está no terceiro mandato como deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT)

Motivação para o ciclo de debates

O título deste ciclo de debates se relaciona às manifestações expressas a partir de 2015, quando intelectuais, políticos, e mesmo certa militância, supostamente ligados à esquerda, deram uma “guinada à direita” justificada pela compreensão de que a esquerda “[…] em sua revolta contra Deus e o mundo – literalmente, quisera fazer as vezes de Deus e transformar o mundo num paraíso, acabando por precipitá-lo no inferno”. Essa ponderação parecia o prenúncio de que os movimentos de placas tectônicas havia chegado à superfície; a ascensão de uma adesão entusiástica à direita apresentava-se sem qualquer espécie de constrangimento, muito pelo contrário. Esse não era um fenômeno apenas catarinense nem tampouco brasileiro. A movimentação de novos grupos de direita era explícita em todos os cantos do planeta.

Entretanto, segundo o professor do Departamento de História da UFSC e vice-presidente da Apufsc-Sindical, Adriano Duarte, o ciclo de debates será focado nos movimentos específicos que ocorreram em nosso estado.

A guinada à direita

Adriano Duarte fez um levantamento sobre como o posicionamento dos eleitores catarinenses mudou no decorrer das duas últimas décadas. Em 2002, a esquerda, representada pela candidatura Luiz Inácio Lula da Silva (PT), obteve 64,1% dos votos em Santa Catarina e o candidato tucano, 35,9%. Em 2006, houve uma pequena movimentação: Lula recebeu 60,83% dos votos e o então tucano Geraldo Alckmin (PSDB), 39,17%. Era possível supor que em Santa Catarina alguma coisa estava, lentamente, se alterando. Na primeira eleição de Dilma Rousseff (PT), em 2010, a tendência de 2006 se acentuou com mais clareza: o tucano José Serra (PSDB) obteve 56,61%, e ela alcançou 43,39%. Mas ainda nessa eleição, se somados os votos de Marina Silva (Rede Sustentabilidade ) e Plinio de Arruda Sampaio (PSOL), a esquerda superava a direita e o centro.

Em 2014, a tendência se inverteu, e os tucanos venceram com 64,59% dos votos, enquanto a esquerda obteve 35,41%. Em 2018, a inversão se consolidou: no segundo turno, a extrema direita recebeu 55,13% dos votos, e a esquerda, 44,87%. Em 2022, o perfil conservador se firmou ainda mais: a extrema direita recebeu 69,27% e a esquerda 30,73%. A centro-direita, representada pelo tucanato, praticamente desapareceu, dando lugar à extrema direita.

Como se percebe, avalia Duarte, há uma tendência progressiva de redução de apoio da esquerda, com a lenta migração dos votos primeiro para o centro político e sua solidificação na extrema direita. Por outro lado, é preciso lembrar que a esquerda já governou diversos municípios do estado: Florianópolis, Chapecó, Joinville, Blumenau, Lages, Criciúma. No Legislativo, a ocupação de postos também encolheu, tanto no Senado quanto na Câmara federal, na assembleia estadual e nas câmaras municipais.

A pergunta que esse ciclo de debates pretende responder é: por que essa mudança se operou? Teria ela correspondido a alterações sazonais no humor dos eleitores? Obedece a tendências encorpadas pela operação Lava-jato? Corresponde às operações midiáticas avassaladoras contra a esquerda desde 2013? É alimentada apenas pelo uso de novas mídias sociais? Qual o papel das instituições religiosas nessa movimentação? Ou, por outro lado, estaríamos assistindo a transformações estruturais mais profundas, portanto de difícil percepção, seja na forma da propriedade rural, seja no mercado de trabalho, seja no associativismo coletivo?

Ao que parece, avalia Duarte, os grupos de extrema direita não apenas perderam o medo de se expressar publicamente, como têm se tornado mais agressivos.

SC no centro de grupos neonazistas no Brasil

Adriana Dias, antropóloga da Unicamp que mapeia os grupos neonazistas pelo Brasil, mostrou que em 2019 havia 334 células ativas no país. Em 2021, elas chegaram a 530; em 2022 são 1.117 células espalhadas pelo país. Segundo suas pesquisas, o Sul do Brasil responde por dois terços dessas células. E apenas em Santa Catarina há mais de 300 delas mapeadas.

De todo modo, pondera Duarte, SC não é um caso isolado no Brasil, assim como o Brasil não é um caso singular no mundo globalizado. “Essa constatação exige de nós uma reflexão sem temor e sem concessões acerca das implicações locais da expansão global da extrema direita: afinal, quais as características específicas do país, e desse estado, que permitem essa vinculação? Por que Santa Catarina é o estado com o maior número de células neonazistas no país? Quais os aspectos históricos e sociológicos nos ajudam a esclarecer essas movimentações?”, questiona. Essas são as perguntas que esse ciclo de debates pretende abordar, tendo em vista seu objetivo central: compreender a realidade para nela intervir.

Assine o manifesto do Movimento Humaniza SC

O Movimento Humaniza SC é uma iniciativa plural, horizontal e descentralizada, formada por representantes de entidades e personalidades catarinenses.

Na ocasião de lançamento do movimento, em 22 de novembro, foi divulgado também o manifesto elaborado pelo grupo. Pessoas físicas e entidades são convidadas a assinarem o documento, que está disponível aqui.