Uma grande reunião de artistas da música autoral transformou Florianópolis em palco de encontros, trocas e novas conexões durante o feriadão de Páscoa. Na sexta e no sábado, 3 e 4 de abril, o Festival Desterro Autoral levou mais de 10 mil pessoas ao Trapiche da Beira-Mar Norte, consolidando-se como um dos principais pontos de convergência entre a cena catarinense e grandes artistas da música independente brasileira.
Na sexta-feira (3), o clima esquentou desde os primeiros acordes. O duo Ibejis abriu a noite ao lado de BNegão, costurando reggae, rap e hip-hop em uma apresentação pulsante, que rapidamente capturou a atenção do público. Em seguida, o instrumental preciso do Skrotes ganhou corpo e expandiu fronteiras ao se encontrar com o recifense Otto, em um diálogo sonoro que transitou entre o experimental e o visceral. A música foi a ponte que integrou as sapiências sonoras e disruptivas dos mangues de Floripa e Recife.
A noite avançou sem perder fôlego. Em um dos momentos mais marcantes, Skrotes, BNegão, Otto, e as cantoras Emilia Carmona (SC) e a cantora Héloa (SE) dividiram o palco em uma apresentação coletiva que rompeu formatos e aproximou trajetórias distintas em uma mesma narrativa musical. Com o público já completamente imerso, o Dazaranha assumiu o encerramento da noite, transformando o espaço em uma grande festa, guiado por um repertório que atravessa gerações.
O sábado (4) seguiu com a mesma intensidade, mas com outras camadas. O trio catarinense NOAHs abriu a programação com uma sonoridade que mistura indie folk e rock alternativo, criando um início sensível e direto. Na sequência, o Brasil Papaya trouxe ao palco três décadas de estrada em um repertório que reafirma a potência da música instrumental — acessível, dinâmica e marcada por influências que vão do choro ao jazz, passando pelo blues, flamenco e música nativista.
Na reta final, Carlos Trilha convidou Marcelo Bonfá para uma apresentação dedicada à obra da Legião Urbana. O encontro mobilizou o público em torno de canções que permanecem vivas no imaginário coletivo e ganhou um capítulo especial com a estreia ao vivo de “Sagrado Coração”, parceria entre Renato Russo e Trilha lançada no álbum Uma Outra Estação. A faixa, que nunca teve versão definitiva na voz do cantor, chegou ao palco carregada de história e simbolismo.
O fechamento ficou por conta de Céu, que celebrou os 20 anos de seu primeiro álbum (Céu, 2005) em um show que se transformou em um grande baile. Entre grooves, camadas eletrônicas e sua assinatura delicada, a artista manteve a plateia em movimento até os últimos minutos, conduzindo o festival a um desfecho alinhado à energia construída ao longo dos dois dias.
Idealizado pelos produtores culturais Arturo Valle e Marina Tavares, em parceria com o músico Thiago Mates, o Desterro Autoral nasce como desdobramento de um movimento que, desde 2024, ocupa a cidade com apresentações em espaços públicos. O festival amplia essa trajetória ao reunir artistas de diferentes regiões do país e reforçar Florianópolis como território fértil para a música autoral. “O festival é parte de um projeto que vem se consolidando há dois anos, a partir dessa aproximação entre o público e os artistas da cidade, ocupando espaços públicos e criando essa sinergia tão essencial para a nossa cultura”, destacaram Arturo e Marina. Para Thiago Mates, esses encontros foram essenciais para o resultado do festival: “sem eles, não teríamos essa entrega: a conexão aconteceu”.
Produção: Studio de Ideias
O Desterro Autoral é um projeto viabilizado pelo PIC (Programa de Incentivo à Cultura) do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), e conta com a incentivadora Fort Atacadista.






