Voltar para a escola depois de muitos anos longe da sala de aula é um desafio que envolve coragem, determinação e esperança em um futuro diferente. Em Florianópolis, a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJA), modalidade ligada à Secretaria Municipal de Educação (SME), tem sido o caminho para muitas pessoas retomarem os estudos e reconstruírem suas histórias. A modalidade garante o direito à educação para pessoas a partir de 15 anos que desejam se alfabetizar ou concluir o ensino fundamental.
Entre essas trajetórias estão as de quatro mulheres de diferentes idades que encontraram na educação uma oportunidade de aprendizado, autonomia e transformação. As histórias de Maria Aparecida, Edilene, Eli Matilde e Adriele mostram como a decisão de voltar a estudar pode mudar vidas.
Organizada em dois segmentos, do primeiro ao quinto ano e do sexto ao nono ano do ensino fundamental, a EJA reúne estudantes com diferentes histórias de vida, experiências e objetivos. A modalidade conta com 21 localidades espalhadas pela Ilha e pelo Continente, ampliando o acesso à educação em diferentes regiões da cidade. Na capital catarinense, as matrículas permanecem abertas durante todo o ano, permitindo que novos estudantes ingressem na modalidade a qualquer momento. Para mais informações sobre as matrículas, os interessados podem procurar a escola municipal mais próxima ou entrar em contato pelo telefone (48) 3239-1579, ramal 4.
Maria Aparecida: redescobrindo a liberdade através da educação
Maria Aparecida da Silva, de 69 anos, nasceu em Salgadinho, em Pernambuco, e chegou a Florianópolis em 2020, no início da pandemia. Atualmente, ela frequenta a EJA no núcleo do Morro das Pedras, onde estuda no 1º segmento, equivalente aos anos iniciais do ensino fundamental.
Sua relação com a escola foi interrompida ainda jovem. Após se casar, Maria foi pressionada pelo marido a abandonar os estudos. Sem alternativas naquele momento, acabou deixando a sala de aula.
Por muito tempo, a vida seguiu assim. Trabalhou, cuidou da casa e da família, mas carregava consigo uma ausência difícil de explicar: a de não ter tido a chance de aprender.
Depois de ficar viúva, algo aconteceu. Ela decidiu que queria viver de outra forma. Foi nesse período que surgiu o convite inesperado de uma colega: voltar a estudar na EJA. Maria aceitou, e aquela decisão mudaria completamente a forma como enxergava o mundo.
Antes de retornar à sala de aula, ela conta que vivia muito sozinha. A televisão era a sua única companhia. Sem saber ler, muitas situações do dia a dia se tornavam difíceis. Ir ao centro da cidade, pegar um ônibus ou resolver algo simples exigia ajuda de outras pessoas.
Com o tempo, a escola começou a abrir novas portas. Aos poucos, Maria foi aprendendo a ler pequenas palavras, se comunicar com mais segurança e a circular com mais autonomia pela cidade.
Hoje, conta que já consegue fazer coisas que antes pareciam impossíveis: entrar em um restaurante, pedir comida, andar de ônibus sozinha e conhecer novos lugares.
As experiências vividas na EJA também ficaram marcadas em sua memória. Passeios culturais, visitas a museus, teatros e até momentos de convivência, como a leitura de histórias em grupo, passaram a fazer parte da sua rotina.
Para Maria, cada pequena conquista representa algo muito maior.
“A vida quando a gente não sabe ler é preto e branco. Depois que aprende, ela fica colorida”, diz.
Edilene: retomando sonhos interrompidos
A trajetória de Edilene Gonçalves Pereira Cardoso também foi interrompida cedo. Natural de Belo Horizonte, ela precisou deixar o ambiente escolar em 1994, após engravidar. Naquele momento, a prioridade passou a ser o trabalho e o reforço na renda familiar.
Hoje, aos 51 anos, Edilene é estudante da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJA) no bairro Tapera, onde frequenta o 2º segmento, correspondente aos anos finais do ensino fundamental.
Anos depois, já vivendo em Florianópolis e com as filhas adultas, decidiu que era hora de olhar para si mesma e retomar uma vontade antiga: voltar a estudar. Na EJA, ela encontrou muito mais do que conteúdo escolar. Encontrou também a oportunidade de redescobrir o próprio potencial.
Ao retornar à sala de aula, Edilene percebeu que ainda era capaz de aprender, evoluir e pensar em novos caminhos para o futuro. Hoje, já cogita dar um passo ainda maior: fazer uma faculdade. Para quem pensa em voltar a estudar, mas ainda sente insegurança, a estudante deixa um conselho cheio de significado: o mais importante é dar o primeiro passo e não desistir dos próprios objetivos.
Eli Matilde: uma nova etapa que começa aos 63 anos
Para Eli Matilde Alves, a sala de aula representa muito mais do que um espaço de aprendizado. Ela simboliza a realização de um sonho que precisou esperar décadas para acontecer.
Moradora de Areias do Campeche, Eli tem 63 anos e estuda na EJA da Tapera, onde também frequenta o 1º segmento, voltado para os anos iniciais do ensino fundamental.
Quando criança, a realidade da família não permitiu que todos os filhos estudassem. Os pais conseguiram garantir ensino para apenas dois dele, e Eli ficou de fora.
Assim, enquanto outras crianças aprendiam a ler e escrever, ela cresceu ajudando nas tarefas de casa e seguindo a vida sem ter tido acesso à educação. Com o passar dos anos, formou família, teve três filhos e se dedicou ao cuidado da casa e da família.
Mesmo sem ter frequentado a escola, o desejo de aprender nunca desapareceu completamente. Era um desejo silencioso, guardado ao longo do tempo.
Hoje aos 63 anos, frequentando as aulas da EJA todas as noites, das 18h às 22h, Eli afirma que se sente feliz por finalmente estar vivendo essa experiência. Na sala de aula, encontrou um ambiente acolhedor, onde pode aprender no seu tempo e sem julgamentos.
Para Eli, a escola representa uma oportunidade de crescimento pessoal e também de realização.
Adriele: juventude e planos para o futuro
Entre as quatro histórias, Adriele Silva Carvalho representa uma geração mais jovem que também encontrou na EJA a oportunidade de continuar sua trajetória escolar. Com 17 anos, ela carrega grandes ambições e uma forte motivação: construir um amanhã melhor para si mesma e para sua família.
Natural do Maranhão, chegou a Florianópolis em 2019 e atualmente mora no Ribeirão da Ilha. Sua rotina é intensa. Durante o dia, trabalha em um restaurante e, à noite, segue para a escola para frequentar as aulas da EJA, estudando no núcleo do Morro das Pedras, onde frequenta o 2º segmento da modalidade.
Em 2025, a jovem precisou fazer uma pausa nos estudos para cuidar do avô, que enfrentava problemas de saúde. Para acompanhá-lo nesse momento, ela passou cerca de três meses no Maranhão.
Ao retornar para a cidade, ela decidiu que não queria deixar os estudos para trás. Procurou a EJA para retomar o caminho da educação e continuar perseguindo seus objetivos.
A estudante conta que aprender tem feito diferença na sua rotina. Antes, após o trabalho, chegava em casa e não tinha muitas atividades. Agora, a escola se tornou parte importante do seu dia, trazendo aprendizado e também um novo sentido para a sua vida.
Mais do que concluir os estudos, Adriele pensa no futuro. Sonha em fazer uma faculdade, conquistar um emprego melhor e dar mais tranquilidade para a mãe, que trabalha muito para sustentar a família.
Para ela, a educação é o caminho para alcançar esses objetivos e transformar a realidade da sua família.




