Na rede municipal de ensino de Florianópolis, enquanto Fabiâni lida com as incertezas de uma investigação de câncer de mama, Maria Aparecida já passou pelo tratamento e carrega as marcas e os aprendizados desse momento. As profissionais revelam diversos sentimentos diante da doença e reforçam a importância do cuidado, da informação e da rede apoio a cada etapa.
Fabiâni Rodrigues, de 50 anos, atua como professora em dois Núcleos de Educação Infantil Municipal (Neims): Professora Alessandra Abdalla e Ana Spyrios Dimatos, ambos na Tapera, em Florianópolis. A educadora vem investigando um possível câncer de mama desde 2021, passando por vários exames preventivos de rotina. Na sua última mamografia, foi identificada uma probabilidade de câncer em desenvolvimento.
Ela sentou com a família e expôs o fato de que, apesar das dificuldades, enfrentaria a situação com muita força e confiança. Ao lado do esposo, do pai, do sobrinho e das enteadas que vivem com ela, tinha em mente o filho, a nora e a neta, de 3 anos. Para Fabiâni, todos eles faziam parte dos motivos que a levavam a seguir em frente e transmitir tranquilidade diante daquele momento.
Mesmo com o sobrinho muito abalado, Fabiâni o acalmou e brincou que, se fosse o caso, usaria perucas diferentes e ficaria linda. “Fiquei assustada, mas, ao mesmo tempo, pensei: se tiver que passar por isso, seguirei firme por mim e por todos que dependem de mim”, relata.
A professora demonstra, diante da descoberta, muita resiliência e perseverança enquanto espera para marcar sua biópsia no Centro de Pesquisas Oncológicas (CEPON) e também muito humor diante das mudanças, para continuar fazendo aquilo que ama: educar.
Uma trajetória marcada por recomeços
A história de Fabiâni não começa com essa investigação. Desde muito nova, ela passou por diversas batalhas e sempre conseguiu se reerguer e recomeçar. Entre outros casos de doenças na família, inclusive câncer, vivenciou situações em que a falta de tratamento ou o cuidado tardio fizeram com que desenvolvesse uma atenção constante com a própria saúde.
Sobrevivente de relacionamentos abusivos, ela enfrentou a perda trágica da cunhada, aos 19 anos de idade, em um incêndio residencial em 2015, evento que deixou seu irmão, Alexandro, em coma, e o sobrinho Yuri, de apenas dois anos, em estado grave.
Anos mais tarde, em 2019, precisou abandonar temporariamente o emprego para cuidar do irmão debilitado, do sobrinho e do pai, que havia descoberto um câncer de próstata, em sua cidade natal, Canoas, no Rio Grande do Sul.
No passado, ela já superou intervenções preventivas complexas: uma cirurgia de retirada parcial da tireoide, aos 22 anos, e outra, que removeu parte do útero, em 2023. No final daquele mesmo ano, Fabiâni prestou o concurso da Prefeitura de Florianópolis e se efetivou na rede municipal.
O acompanhamento de Fabiâni começou com exames que ainda não apresentavam alterações suspeitas. Nos anos seguintes, porém, a classificação mudou gradualmente, passando por categorias de maior suspeição até chegar a uma probabilidade de malignidade de até 10% no exame mais recente.
Foi somente nesse momento que Fabiâni recebeu o encaminhamento para uma biópsia, procedimento que poderá determinar se a alteração encontrada é benigna ou maligna. Segundo ela, o médico responsável pelo último exame se mostrou surpreso com o fato de a investigação não ter sido iniciada anteriormente, diante da evolução observada nos resultados.
A situação reforçou, para Fabiâni, a importância de manter o acompanhamento médico mesmo quando não há sintomas ou suspeitas, já que algumas alterações não podem ser identificadas durante o autoexame, como pelo toque, por exemplo.
O acolhimento da comunidade escolar
A educadora sempre manteve uma rotina de cuidados com a própria saúde, postura que se reflete na forma como construiu suas relações no ambiente de trabalho. Nos dois núcleos de educação infantil onde atua, encontrou acolhimento diante do momento que enfrenta.
“As professoras e auxiliares, todas me abraçaram e falaram que vai ficar tudo bem”, conta. Ao comunicar as consultas e os exames com antecedência, Fabiâni consegue conciliar o acompanhamento médico com a rotina profissional, sem precisar se afastar das salas de aula.
O apoio recebido nos Neims se soma às ações de conscientização promovidas durante o Outubro Rosa. Camisetas e cartazes informativos reforçam a importância da prevenção e do cuidado com a saúde das mulheres que fazem parte da comunidade escolar. Para Fabiâni, iniciativas como essas são muito significativas. “Esse momento representa acolhimento, apoio, prevenção e cuidado com a vida”, comenta.
“Cuidamos tanto dos outros e esquecemos de cuidar de nós”
Fabiâni ainda deixa um alerta para outras profissionais da educação e para as mulheres de modo geral, especialmente aquelas que podem estar passando por uma situação semelhante. Para ela, o cuidado com a própria saúde não deve ser adiado diante das responsabilidades do dia a dia.
“Cuidamos tanto dos outros e esquecemos de cuidar de nós. Não deixe para depois para fazer os exames de mamografia. Se tem alguma suspeita, assim como eu, busque informações, apoio e acompanhamento psicológico. A ajuda da família e dos amigos é primordial. Você não precisa passar por isso sozinha.”
A vitória do outro lado do tempo: a história de Maria Aparecida
Do outro lado da Ilha, na Escola Básica Municipal Professora Herondina Medeiros Zeferino, no bairro dos Ingleses, a administradora escolar Maria Aparecida, de 62 anos, compartilha de um sentimento parecido, mas com o alívio de quem já cruzou a linha de chegada. Ela enfrentou e venceu o câncer de mama em 2009.
Natural de Centenário do Sul (PR) e morando na capital catarinense desde 2019, Maria Aparecida ingressou na rede municipal em 2021. Hoje, concilia a gestão da escola com os cuidados do lar, caminhadas, o culto infantil aos domingos e a produção de bolos para venda, uma atividade que adotou como terapia.
Sua trajetória de superação começou cedo. Vinda de uma família de 14 irmãos, perdeu os pais aos 18 anos. Determinada, construiu uma carreira sólida no setor de telecomunicações, subindo de telefonista até o cargo de gerente de negócios, em que permaneceu até se aposentar, em 2012.
Foi em agosto de 2009, quando o filho caçula, Lucas, de apenas dois anos na época, que o rumo das coisas mudou. Ao apalpar o seio, Maria sentiu um caroço. O alerta foi imediato: agendou uma consulta com uma ginecologista, realizou exames de ultrassonografia e mamografia e recebeu o diagnóstico positivo para o câncer.
“Foi uma notícia muito dolorida. Chorei à noite durante 30 dias, com meu filho perto de mim, orava para me curar”, relembra. “Se caso morresse, pensava quem cuidaria dos meus filhos, mas, ao mesmo tempo, tinha muita fé.”
O impacto do tratamento no trabalho e a força para continuar
Diferentemente de Fabiâni, que consegue manter a rotina ativa nas escolas, o protocolo de tratamento de Maria Aparecida exigiu um afastamento total. Em outubro daquele ano, ela já iniciava a primeira quimioterapia, passando posteriormente por uma quadrantectomia, técnica cirúrgica realizada para a retirada de tumores mamários com preservação da mama, com esvaziamento axilar e retirada de 17 linfonodos.
Como sua função na época exigia visitas diárias de carro a clientes corporativos, a queda na imunidade e a fraqueza tornaram o trabalho inviável, resultando em um afastamento de dois anos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
“Foi triste falar e ter que me afastar, mas todos entenderam”, conta ela, que encontrou na equipe um acolhimento inesquecível. Em um gesto de cuidado, três amigas do trabalho se juntaram e fizeram um depósito em sua conta bancária sem que ela sequer soubesse ou precisasse pedir.
Para Maria, a vaidade ficou em segundo plano diante do desejo de sobreviver. “Não tive medo de ficar sem as mamas, sem os cabelos. Eu só queria continuar viva para cuidar dos meus filhos e da minha família”, afirma. Sua cura veio sustentada pela sua fé e pelo apoio do esposo, dos filhos, dos irmãos e das amigas.
Outubro Rosa como espaço de conscientização
Atuando juntas na educação de Florianópolis, Fabiâni e Maria Aparecida enxergam o Outubro Rosa como um marco indispensável de conscientização. Para a administradora, as ações nas escolas são fundamentais para que as jovens cresçam com essa mentalidade de cuidado.
Para as mulheres que estão adiando a ida ao médico, por medo ou falta de tempo, Maria Aparecida deixa um conselho confiante: “Realizem os exames e façam o acompanhamento. Caso detectem algo, encarem de cabeça erguida e continuem fazendo as mesmas coisas, somente parem quando não tiverem mais condições.”
As duas educadoras compartilham, a partir de suas próprias experiências, a importância do cuidado com a saúde e do acolhimento durante o processo. “Levar em consideração o tratamento, as etapas de cada protocolo dos médicos e ter o acolhimento com amor”, finaliza.









