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“Eu sou a minha liberdade” mostra importância da leitura em projeto de redução de pena

Jornalista Amanda Antunes Bueno pesquisa em presídios o papel dos livros na rotina do cárcere e no processo de libertação, real e figurado

Jornalista e apaixonada por literatura, Amanda Antunes Bueno decidiu escrever “Eu sou a minha liberdade” ao saber que os presidiários estão entre os maiores leitores do país. A confirmação dos números veio de uma reportagem: a média de leitura do brasileiro é atualmente de 2,55 livros por ano, lidos do início ao fim, mas em uma unidade prisional do Distrito Federal chegava até 36 títulos, em 2018.

O livro  da autora, que chega às livrarias e plataformas on-line pela editora Appris, traz entrevistas com detentos e detentas de Florianópolis, além dos professores que acompanham o processo, retratando sem preconceito histórias atrás das grades. O lançamento será no dia 27 de fevereiro, às 19h, Espaço Cultural Aristiliano Ramos, no calçadão da Praça da João Costa (Avenida Ida Ranzolin, 171 – Centro, Lages – Santa Catarina).

“Ao participarem do projeto Despertar pela Leitura, que faz remição de pena em Santa Catarina, é possível diminuir quatro dias de pena, mediante o cumprimento dos requisitos e participação ativa do programa. Essas pessoas passam a sonhar com uma realidade melhor, para si e para as próximas gerações da família. É como aconteceu com Anderson, que aos 11 anos foi apreendido pela primeira vez e aos 12 já andava armado. Em uma de nossas conversas, confidenciou que não achava que passaria dos 25 e já ia fazer 30. ‘Não tem só o lado mau que impera. Se hoje eu não tivesse o aprendizado, poderia estar morto’, contou. Ou como Joel, que ao ler, estudar e cursar uma faculdade durante os 15 anos em que ficou preso, despertou também nos filhos o sonho de acessar a universidade e mudou o rumo de toda uma geração da família”, diz Amanda.

Consciente de que presídio e direito humanos são temas polêmicos em um país de tanta polarização, a autora acredita que não falar sobre um problema não fará com que ele deixe de existir. Ao lembrar que o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, ela acrescenta que é impossível não pensar em saber mais sobre essa realidade: 

“Vivemos alheios ao que acontece ao redor, sem perguntar motivos e consequências das coisas. A leitura nos dá a possibilidade de superar os limites de nossas realidades individuais. Mergulhar em qualquer leitura torna necessário despirmo-nos de generalização e preconceito. Tive acesso a uma realidade que poucas pessoas conhecem e pela qual menos ainda se interessam. É preciso conseguir olhar para as coisas como são, e não como gostaríamos que fossem. As pessoas com quem conversei têm personalidades, histórias e trajetórias completamente diferentes e suas histórias, além da privação de liberdade, têm mais um fio condutor em comum: a leitura. Em muitos aspectos, a vida por trás das grades permanece envolta em mistério para muitos de nós, confinados em nossa própria bolha social. É fácil aceitar as narrativas apresentadas por manchetes ou seriados de ficção, mas é sempre bom irmos atrás de informações que apresentem a realidade como ela de fato é. Só assim poderemos ter uma visão menos estereotipada do mundo e dos seres humanos.”

Amanda Bueno reforça o poder transformador da leitura em “Eu sou a minha liberdade”. Segundo ela, alguns leitores do cárcere não se restringem às páginas que precisam comentar depois de lidas. Ela cita o caso do detento Torres que, na cozinha do presídio, lê embalagens dos produtos, imaginando histórias e roteiros por trás de cada pacote. “Quanto mais informações, melhor para a cabeça viajar e se fazer presente na cidade de origem do alimento”, escreve a autora. 

“Muitas vezes, quando falava sobre o tema do livro a alguém, ouvia que ‘eles têm tempo de sobra, é claro que dá pra ler tudo isso’. Será que ler em um ambiente em que predomina a hostilidade, o barulho do metal que bate e se choca constantemente, lembrando a cada minuto que você está ali, preso, é tão fácil assim de ignorar?Afinal, para alguém que vive por anos em uma cela superlotada, rodeado de metal, concreto e vigilância, a experiência de leitura significa a mesma coisa que para alguém que opta por ler no conforto do sofá de casa? Enquanto alguns presos buscam a liberdade física, estes acabam encontrando uma forma de liberdade interior através da leitura. O quanto nós, em liberdade de ir e vir todos os dias, estamos aprisionando nossas mentes ao deixar de instigá-las através da leitura?”, questiona Amanda.

No prefácio do livro, o jornalista Mauri König, vencedor de vários prêmios no país, entre eles dois ExxonMobil (antigo Prêmio Esso de jornalismo), elogia a determinação da autora em seguir com a obra, mesmo com tema desafiador:

“Narrativas jornalísticas em primeira pessoa costumam soar egocêntricas. Não é este o caso. A autora entra na história como, digamos, um alter ego do leitor, ao descrever suas impressões, incertezas, medos e reações num ambiente em que ninguém gostaria de estar. Ao ouvir do agente penitenciário a frase ‘Bem-vinda ao inferno!’, Amanda poderia ter dado meia-volta, mas não o fez. E, enfim, temos aqui o resultado das muitas coragens de Amanda.”

Sobre a autora: Amanda Antunes Bueno nasceu em Lages, na Serra Catarinense. Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sempre produziu seus trabalhos norteada por um mesmo objetivo: fazer ecoar as vozes de seres humanos que têm muito a dizer, mas nem sempre têm a possibilidade de serem ouvidos. Foi finalista do Prêmio Exposição de Pesquisa e Produção Experimental em Comunicação (Expocom) Regional Sul, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a Intercom, na modalidade livro-reportagem.

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