Às vésperas da Semana do Meio Ambiente, a Prefeitura de São José inicia uma série especial de reportagens sobre as Hortas Solidárias do município, projeto que vem transformando terrenos antes abandonados em espaços de convivência, sustentabilidade e integração comunitária. Nesta semana, a equipe visitou a Horta Solidária do loteamento Lisboa, onde moradores cultivam muito mais do que alimentos: cultivam vínculos, saúde e pertencimento.
O que antes era um terreno tomado por entulho, descarte irregular de lixo e abandono, hoje floresce em forma de alimento, convivência e acolhimento. Na Horta Solidária do Lisboa, moradores encontram mais do que hortaliças frescas: cultivam saúde, amizades, renda e novas histórias.
Logo na chegada à horta, a recepção vem acompanhada de orgulho. Presidente da Associação de Moradores do Parque Residencial Lisboa (Amprel) e coordenador da horta, Paulo César Jorge acompanha de perto o crescimento do espaço e a mudança na rotina das famílias.
Hoje, o terreno ao lado da Capela Nossa Senhora de Fátima é ocupado por canteiros organizados, mudas verdes e moradores que dividem experiências diariamente. Mas para que isso fosse possível, foram necessários cerca de 40 caminhões para retirar os resíduos e transformar completamente o local.
Um espaço que mudou a vizinhança
Para Dona Margo e o marido, o metalúrgico Alexsandro Silveira, a mudança foi percebida dentro de casa. Moradores da região há décadas, eles lembram que o terreno acumulava lixo, água parada e muitos mosquitos.
“Eu moro aqui há vinte e sete anos. Tinha muito pernilongo, gastava até quatro frascos de repelente por mês. Hoje ficou um espaço bonito, aproveitável, muito melhor para todo mundo”, conta Alexsandro.
Agora, a família frequenta a horta junto dos vizinhos e acompanha de perto a transformação de um espaço antes abandonado em um ponto de encontro da comunidade.
O aposentado José Rock, primo de Alexsandro, também encontrou na terra uma nova rotina. Entre o preparo do solo e o cultivo das hortaliças, ele diz que redescobriu pequenos momentos de felicidade.
“É bom mexer na terra, adubar, plantar e depois colher. Quando vejo que fui eu quem cuidou de tudo aquilo, dá uma felicidade muito grande”, relata.
Plantar também é cuidar da saúde
Entre os canteiros da horta, histórias de superação se misturam ao cheiro da terra molhada e das hortaliças recém-plantadas.
Empresário e dono de uma floricultura, José André Soares encontrou no cultivo uma forma de desacelerar a rotina e cuidar da própria saúde emocional.
“A vida corrida faz a gente esquecer que é nas coisas simples que mora a saúde. Eu tive um processo de depressão e mexer na terra me ajudou muito. Ter esse tempo com a natureza vai muito além da horta. Aqui eu plantei uma nova vida”, afirma.
Além de cultivar hortaliças, José André ajuda outros moradores no plantio e compartilha orientações sobre espaçamento, adubação e cuidados com as mudas.
“Hoje eu consigo ajudar outras pessoas também. É um espaço onde todo mundo aprende junto”, completa.
Uma terapia compartilhada entre gerações
A aposentada Marli Eva participa da horta diariamente e já ocupa dois canteiros. Se pudesse, diz ela, teria ainda mais espaço para plantar.
Para Marli, a horta trouxe um novo sentido para a aposentadoria e aproximou ainda mais a família.
“Isso aqui virou uma terapia para mim. Faço amizades, aprendo coisas novas e ainda trago meus netos para acompanhar tudo, do plantio até a colheita. Temos até um canteiro só deles”, conta emocionada.
Os netos ajudam a semear, regar e colher os alimentos. Segundo ela, o contato com a terra ajuda as crianças a entenderem o valor do alimento e da natureza.
Hortas que unem comunidade e geram renda
Além de fortalecer os vínculos comunitários, o programa também movimenta a chamada economia solidária. Parte dos alimentos cultivados pode ser consumida pelas famílias e outra parte comercializada.
Na Horta Solidária do Lisboa funciona o sistema “Colhe e Pague”, realizado aos sábados, quando os moradores vendem os produtos cultivados diretamente para a comunidade.
Coordenador geral do programa, Luiz dos Santos acompanha de perto cada etapa das hortas espalhadas pelo município e fala com orgulho sobre os resultados alcançados.
“Cada horta tem sua história e seu aprendizado. Trabalhar com esse projeto é entender a grandiosidade da natureza e das pessoas. Em todo o processo existe troca, cuidado e transformação”, afirma.
Segundo ele, o programa segue em expansão.
“A nossa meta é chegar a dez hortas em São José nos próximos anos, ampliando o acesso da população a esses espaços de convivência, saúde e sustentabilidade”, destaca.
Sustentabilidade e transformação social
O programa Horta Solidária Urbana de São José começou em março de 2022, com a implantação da primeira unidade no bairro Serraria, em uma área antes utilizada para descarte irregular de resíduos.
Hoje, o município já conta com seis hortas comunitárias espalhadas pelas regiões do Morar Bem, Forquilhinhas, Ipiranga, Areias e Lisboa, reunindo moradores de diferentes idades em torno da agricultura urbana e do desenvolvimento sustentável.
O superintendente da Fundação Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Rubens Pereira Júnior, destaca que o programa vai além da produção de alimentos.
“As hortas solidárias representam transformação social, recuperação ambiental e fortalecimento comunitário. São espaços que promovem saúde, pertencimento e qualidade de vida, além de devolverem dignidade a áreas que antes estavam abandonadas”, ressalta.
Na Horta Solidária do Lisboa, cada canteiro conta uma história. Histórias de famílias que voltaram a conviver mais, de aposentados que encontraram um novo propósito, de crianças aprendendo sobre a natureza e de moradores que descobriram, na simplicidade da terra, uma nova forma de viver a cidade.





