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Mulheres da EJA da Capital transformam o direito de estudar em novas possibilidades

Com estudantes entre 23 e 82 anos, turma reúne diferentes gerações, incluindo mãe e filha, em um espaço de aprendizagem, autonomia e cidadania

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Aos poucos, entre cadernos, conversas, pesquisas e descobertas, 10 mulheres vêm construindo uma nova relação com a escola e com o conhecimento, exercendo o direito de voltar a estudar vivenciando a possibilidade de aprender a ler, escrever e ampliar seus conhecimentos. Encontram na EJA um espaço para fortalecer sua autonomia, conhecer e exercer direitos e construir novos projetos. Elas são estudantes da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJA) ligada à Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis.

A história da turma 20 do Núcleo EJA Sul 1, atendida no Centro de Saúde do bairro Carianos, Sul da Ilha, é marcada por diferentes trajetórias de vida, experiências, responsabilidades e desafios. Para essas pessoas, o acesso à educação foi interrompido ou adiado por diferentes circunstâncias, o retorno à escola materializa o direito à educação ao longo da vida e, ao mesmo tempo, a abertura de novas possibilidades.

Elas têm entre 23 e 82 anos de idade. Algumas estão se alfabetizando, e, outras, concluindo o ensino fundamental. As aulas ocorrem duas vezes por semana, quarta-feira pela manhã, e na sexta-feira à tarde. A turma é acompanhada diretamente pelas professoras Janete Elenice Jorge e Emiliana Correa.

O trabalho desenvolvido, com o grupo de estudantes, integra um planejamento construído coletivamente pelos profissionais do Núcleo nas reuniões de segunda e quarta-feira, em uma dinâmica de docência compartilhada que acompanha, de forma conjunta, os percursos de aprendizagem e as pesquisas das estudantes.

Evageslaine Marques Brites, 75 , tem um sonho, o de ingressar no ensino superior. “Eu parei de estudar aos 12 anos e sempre tive esse sonho de voltar a estudar e, um dia, entrar em uma faculdade. E, se eu quero, eu posso”.

Nara Regina Coelho de Avila está no primeiro segmento da EJA. “Ainda não aprendi a ler nem a escrever, mas aprendi muito além da escrita. Aprendi a desenvolver a minha inteligência, porque achava que não era capaz. A professora me ensinou e despertou em mim o que é a inteligência”, completou Nara, 58.

Irene Maria da Silva Cordeiro, 52 , afirma que na EJA “principalmente as mulheres vão se sentir mais independentes, vão conhecer a liberdade e perceber que podem conquistar muitas coisas por conta própria, sem depender de ninguém”.

A colega dela, Rafaela Ivanilda da Silva, 36, afirma que com a Educação de Jovens e Adultos a sua autoestima “fica lá em cima e a gente se sente mais confiante”. Ela já auxilia a filha de 6 anos nas tarefas escolares do primeiro ano do ensino fundamental. Para Maria Antoninha Bertusso, 57, na EJA as mulheres conseguiram, junto com as professoras, “criar um ambiente agradável e que faz muito bem para todas”.

Orgulhosa, Margarete Iris de Souza, que está em fase de alfabetização, já começou resolver algumas coisas relacionadas ao banco e também a acompanhar melhor as novidades e as ferramentas do aparelho celular. “Espero ter um futuro cada vez melhor para mim e para todos os meus colegas que estão aqui, juntos comigo, nessa caminhada”, relata a estudante de 54 anos de idade.

Sueli Cordeiro considera essa modalidade de educação a oitava maravilha do mundo. “Com a EJA, eu me sinto bem e sou feliz”, completa a mais idosa do grupo, com 82 anos, e mãe da estudante Irene.

Indicação médica

Algumas dessas mulheres receberam como “receita médica” uma sugestão de retorno ao banco escolar. A Secretaria Municipal de Educação e a Secretaria Municipal de Saúde estabeleceram um protocolo, em 2025, de encaminhamento para a EJA de usuários da Atenção Primária à Saúde.

Esse encaminhamento passou a integrar o prontuário eletrônico das pessoas a partir de 15 anos que não concluíram o ensino fundamental ou que não foram alfabetizadas. O protocolo também apresenta aos profissionais da saúde informações sobre a proposta pedagógica da EJA e os direitos assegurados aos estudantes.

Conforme o secretário de Educação, Eduardo Gutierres, as equipes da EJA realizam a chamada “busca ativa”, a de entrar em contato com essas pessoas para convidá-las a ingressarem na modalidade de educação de acordo com suas condições e realidades.

Explorando o bairro

Na sala de aula, aprender está diretamente relacionado à vida cotidiana. O trabalho pedagógico é desenvolvido por meio da pesquisa como princípio educativo, colocando as estudantes no papel de investigadoras da própria realidade, enfatiza a professora Janete Elenice Jorge.

“Em vez de apenas receberem informações, elas são convidadas a formular perguntas, buscar respostas, observar o território onde vivem, conversar com diferentes pessoas, pesquisar informações e refletir sobre os serviços e as condições de vida da comunidade.”

A proposta da pesquisa, sugerida pelo grupo, transforma o bairro Carianos em uma extensão da sala de aula. As estudantes passam a olhar para lugares conhecidos sob uma nova perspectiva: que serviços públicos existem no território? Como acessá-los?

Entre as experiências vivenciadas pela turma está uma aula prática realizada no Centro de Referênciade Assistência Social (CRAS). A visita possibilitou às estudantes conhecer mais de perto o funcionamento do serviço e compreender como a população pode acessar as políticas públicas de assistência social.

A pesquisa na EJA é uma ferramenta de leitura do mundo, não uma atividade escolar. Ao investigar o lugar onde vivem, as estudantes passam a compreender melhor a si mesmas como cidadãs de direitos, relata Janete Elenice.

Escrever passa a ser uma forma de participação: registrar uma opinião, produzir uma mensagem, elaborar uma pergunta, organizar informações de uma pesquisa ou expressar aquilo que se pensa sobre o lugar onde se vive.

“Em uma turma da EJA, cada estudante traz consigo uma história singular. São mulheres que chegam à escola carregando experiências de trabalho, família, maternidade, cuidados, desafios e conquistas. Ao mesmo tempo, trazem desejos que continuam vivos”, frisa a professora.

Ingresso na EJA a qualquer momento

Para facilitar a matrícula na Educação de Jovens e Adultos, o processo pode ser feito pela internet. O acesso ao serviço ocorre pela página inicial do portal da Prefeitura, por meio do ícone “Matrículas EJA”. O cadastro permanece aberto durante todo o ano, possibilitando que novos estudantes ingressem na modalidade a qualquer momento.

As aulas são oferecidas de segunda a sexta-feira, nos turnos matutino, vespertino e noturno.

Na EJA da rede municipal, o acesso à escolarização é gratuito, e os estudantes também têm direito à alimentação e, nos casos previstos em lei, ao passe escolar para aqueles que residem a mais de dois quilômetros da unidade e possuem renda familiar inferior a três salários mínimos.

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