A primavera nem começou oficialmente, mas a corrida pelo chamado “corpo do verão” já costuma ganhar espaço nas academias e nas redes sociais nesta época do ano. Em 2026, a nova estação começa no Brasil às 21h05, deste dia 21 de setembro e segue até 21 de dezembro, quando começa o verão.
Junto com a proximidade dos meses mais quentes, reaparecem desafios de emagrecimento, jejuns, dietas com forte restrição de carboidratos, sucos detox, chás, cápsulas e suplementos vendidos com promessas de resultados rápidos. A professora e coordenadora do curso de Nutrição do UNICESUSC, Liliana Bricarello, explica que é justamente nesse momento que um objetivo legítimo, como melhorar a alimentação ou perder peso corporal, pode acabar se transformando em uma corrida contra o relógio. E a ciência mostra que rapidez não é necessariamente sinônimo de uma estratégia melhor.
Estudo do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, de 2025, aponta que pessoas que emagrecem de maneira gradual e constante, em torno de 450 a 900 gramas semana, tendem a ter maior probabilidade de manter o peso perdido do que aquelas que emagrecem mais rapidamente. O órgão também destaca que controle de peso envolve alimentação, atividade física, sono e manejo do estresse, além de fatores individuais. Além disso, o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK) alerta que a perda muito rápida de peso e dietas de valor calórico muito baixo podem aumentar o risco de formação de cálculos biliares.
O feed promete. Mas o que a ciência diz?
Entre tantas estratégias apresentadas como atalhos para chegar ao verão com alguns quilos a menos, algumas merecem um olhar mais cuidadoso. E a professora e coordenadora do curso de Nutrição do UNICESUSC, Liliana Bricarello explica algumas das “dietas” mais comuns na temporada.
Detox: o corpo precisa mesmo de uma “limpeza”?
Sucos verdes, chás, dietas líquidas e programas de “limpeza” são vendidos com a promessa de eliminar toxinas e, frequentemente, promover emagrecimento.
A evidência científica, porém, é bem menos espetacular. A professora explica que, no Brasil, um boletim elaborado pela Ouvidoria da Anvisa e pela Secretaria Nacional do Consumidor já havia analisado dietas baseadas em sucos, vitaminas, shakes e cápsulas vendidos com proposta de “desintoxicação” e alertado que as alegações de eliminação de toxinas não haviam sido comprovadas.
Uma revisão publicada em 2026 voltou os olhos especificamente para os chamados chás detox e produtos comercializados para emagrecimento. Após analisar dez estudos de diferentes tipos, os pesquisadores concluíram que as evidências de benefício para perda de peso são limitadas e identificaram relatos de efeitos adversos e de produtos contendo ingredientes não declarados. O estudo reforça a necessidade de cautela com produtos vendidos como “naturais” e capazes de provocar emagrecimento.
Jejum emagrece mais?
O jejum intermitente ganhou enorme popularidade, mas não deve ser tratado nem como fraude nem como solução milagrosa.
Um estudo de 2025, publicado na revista científica britânica The BMJ, comparou estudos de diferentes estratégias de jejum intermitente, restrição energética contínua e alimentação sem restrição planejada. Os pesquisadores observaram que o jejum pode ser uma estratégia possível em determinados casos, mas não há evidência de que simplesmente passar várias horas sem comer seja um atalho universalmente superior para emagrecer.
Cortar carboidrato é obrigatório para emagrecer?
Outro comportamento recorrente no “projeto verão” é colocar todos os carboidratos no mesmo grupo e eliminá-los da alimentação.
Mas a nutricionista chama a atenção para alimentos ricos em carboidratos que também aparecem entre os recomendados como parte de uma alimentação adequada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde. “Arroz, aveia e outros cereais, feijão e demais leguminosas, batata, mandioca e outras raízes e tubérculos estão entre os alimentos in natura ou minimamente processados considerados adequados para alimentação saudável”, explica Bricarello.
“O principal não é excluir indiscriminadamente os carboidratos, mas fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação e evitar que produtos ultraprocessados ocupem o lugar desses alimentos e das preparações culinárias. Por isso, dizer simplesmente que carboidrato engorda coloca no mesmo grupo alimentos com características nutricionais bastante diferentes”, afirma Bricarello.
E os suplementos que prometem “secar”?
Aqui não se trata apenas de discutir se a promessa tem ou não evidência científica.
A nutricionista alerta que existe uma regra sanitária. “A Anvisa afirma expressamente que a legislação brasileira proíbe suplementos alimentares de fazerem alegações de perda de peso ou emagrecimento. Também não são permitidas alegações como aumento da imunidade, ganho de massa muscular, melhora da concentração ou tratamento de ansiedade e doenças. Isso significa que anúncios de suplementos apresentados como produtos capazes de ‘derreter gordura’, ‘secar barriga’ ou provocar emagrecimento merecem atenção redobrada do consumidor”.
Redes sociais também entram nessa equação
A relação entre dieta, aparência e redes sociais merece atenção por outro motivo.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Body Image reuniu 83 estudos, com 55.440 participantes, para investigar a relação entre comparação social online, imagem corporal e sintomas relacionados aos transtornos alimentares.
Os pesquisadores encontraram associação significativa entre maior comparação social nas redes e maior preocupação com a imagem corporal. Também encontraram associação entre maior comparação social e sintomas de transtornos alimentares. A conclusão dos autores, porém, chama atenção para o papel da comparação de aparência no ambiente digital. Quanto maior a tendência de uma pessoa se comparar online, piores foram, em média, os indicadores de imagem corporal encontrados nos estudos analisados.
Quero chegar ao verão me sentindo melhor. Por onde começar?
A existência de riscos associados a dietas radicais não significa que alguém precise abandonar o desejo de emagrecer, melhorar a alimentação ou mudar hábitos. As evidências apontam justamente para uma diferença entre fazer mudanças planejadas com nutricionistas habilitados e apostar em atalhos.
A professora Bricarello recomenda priorizar alimentos in natura e minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, arroz, feijão, ovos, carnes, peixes, raízes e tubérculos, dentro de uma alimentação adequada às necessidades individuais. Além de fazer atividade física regularmente, manter uma rotina de sono suficiente e de equilibrio do estresse para alcançar um controle saudável do peso.
Antes de seguir uma estratégia encontrada no feed, a nutricionista recomenda fazer alguns questionamentos:
- A promessa envolve perder muitos quilos em pouquíssimo tempo?
- É necessário comprar um chá, cápsula, suplemento ou produto específico para que o método funcione?
- A estratégia elimina vários alimentos sem considerar as necessidades individuais?
- A recomendação vem de um profissional habilitado ou principalmente de vídeos, depoimentos e fotos de antes e depois?
- É uma mudança que poderia fazer parte da rotina por meses ou algo pensado apenas para sobreviver até o verão?
“No fim das contas, o corpo não muda porque dezembro está chegando e hábitos capazes de continuar depois do verão tendem a ser mais úteis do que estratégias criadas para durar apenas algumas semanas”, finaliza a especialista.









