Mais do que uma medida preventiva, a vacinação da população idosa se tornou uma estratégia essencial de proteção à vida. Com o avanço da idade, o organismo perde parte da capacidade de resposta imunológica, o que aumenta significativamente o risco de agravamento de doenças infecciosas.
Os números mais recentes dão a dimensão do problema em Santa Catarina. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES/SC), o estado já soma, em 2026, mais de 5,7 mil hospitalizações e 269 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). E é justamente entre os idosos que o risco mais preocupa. De acordo com o Boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a mortalidade por SRAG segue concentrada em pessoas com 65 anos ou mais, principalmente nos casos ligados à influenza A.
O cenário nacional ajuda a entender por que Santa Catarina ainda pede atenção redobrada. O levantamento mais recente do InfoGripe, referente à Semana Epidemiológica, divulgado em 9 de julho, mostra que o número de casos de SRAG começou a cair no Brasil após cerca de cinco meses seguidos de alta. Apesar disso, Santa Catarina segue entre os seis estados em situação mais preocupante, com nível de alerta, risco ou alto risco e tendência de crescimento no longo prazo, ao lado de Amazonas, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Roraima.
“Quando a gente fala de idoso, a vacinação deixa de ser só prevenção, ela passa a ser uma estratégia de proteção de vida mesmo”, afirma o enfermeiro e professor do curso de Enfermagem da Estácio, Julio Eduvirgem. Segundo ele, entre as principais vacinas recomendadas estão a influenza, com aplicação anual, os reforços contra a Covid-19, além das vacinas pneumocócica, dT (difteria e tétano) e, em alguns casos, hepatite B. Segundo o especialista, manter o calendário em dia contribui diretamente para evitar complicações, reduzir internações e preservar a autonomia dos idosos.
“O organismo demora mais para reconhecer o vírus, produz menos anticorpos e tem uma resposta menos potente”, explica o professor. Isso não significa, continua ele, que a vacina não funcione, mas reforça a necessidade de doses periódicas. “Não é que a vacina não ‘pegue’ no idoso. É que o organismo precisa de mais estímulo para se proteger bem”.
O enfermeiro explica que as vacinas funcionam como um treinamento para o sistema imunológico. Ao entrar em contato com versões inativadas ou fragmentos dos agentes infecciosos, o organismo aprende a reagir e cria memória imunológica. “O mais importante é entender que muitas vacinas não evitam 100% a infecção, mas reduzem muito a gravidade. É isso que faz diferença na prática”, destaca.
Na população idosa, esse efeito é determinante para evitar hospitalizações e mortes, especialmente em doenças como gripe, Covid-19 e pneumonia. Por isso, explica o professor, a ausência da vacinação expõe o idoso a riscos considerados evitáveis.
Segundo Eduvirgem, a gripe, muitas vezes subestimada, pode evoluir para pneumonia. A Covid-19 segue em circulação, com maior risco de agravamento nessa faixa etária. “Já a pneumonia permanece como uma das principais causas de hospitalização entre idosos”, alerta.
Com a chegada do frio, a tendência é de aumento dessas doenças — o próprio boletim da Fiocruz reforça que, mesmo com o início de queda das hospitalizações no país, o volume de casos ainda é elevado e recomenda a manutenção das medidas de prevenção, como higienizar as mãos com frequência, cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar e, principalmente, manter a vacinação em dia entre os grupos de risco.
Apesar do risco maior entre os idosos, a adesão à vacina no estado ainda está longe do ideal. De acordo com a SES/SC, a cobertura vacinal contra a influenza nos grupos prioritários catarinenses está em apenas 45,61% – bem abaixo da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde. “Estamos em um momento de maior circulação de vírus respiratórios e aumento da demanda nos serviços de saúde. A vacinação contra a influenza segue sendo a medida mais eficaz para prevenir hospitalizações e óbitos”, destaca João Augusto Fuck, diretor da Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive/SC).
Mitos e verdades sobre vacinação
Entre os principais desafios para a vacinação estão dúvidas e receios comuns entre os idosos. “A gente escuta muito: ‘tomei e fiquei gripado’, ‘preciso tomar de novo?’, ‘vacina faz mal?’”, relata o professor. Nesse contexto, o papel da enfermagem é fundamental, especialmente no acolhimento, na escuta e na orientação em linguagem acessível.
Diante da circulação de informações desencontradas sobre vacinação, é preciso desmistificar crenças equivocadas, que ainda são um dos principais obstáculos para a adesão às campanhas, especialmente entre idosos. Essas percepções podem levar ao atraso ou à recusa da vacina, aumentando o risco de complicações, internações e até mortes por doenças evitáveis.
Para o professor Julio Eduvirgem, esclarecer essas dúvidas é fundamental para transformar informação em cuidado. Ele destaca alguns dos principais mitos e verdades sobre o tema:
“Vacina da gripe causa gripe”
Mito: A vacina é feita com vírus inativado e não provoca a doença.
“Se fiquei doente depois de vacinar, não funcionou”
Mito: Ela reduz a gravidade, mesmo quando não evita totalmente a infecção.
“Só preciso me vacinar uma vez”
Mito: Algumas vacinas exigem reforços, principalmente em idosos.
“Vacina faz mal”
Mito: Eventos graves são raríssimos e o risco da doença é muito maior.
“Idosos precisam mais de vacina que jovens”
Verdade: Risco de complicações é significativamente maior.
“Gripe não é resfriado”
Verdade: A gripe costuma ter início súbito, febre alta e dores intensas no corpo, com maior risco de complicações. Já o resfriado apresenta sintomas mais leves, como coriza e espirros, com evolução geralmente tranquila.







