Conversar com sua família da vontade de doar órgãos pode fazer a diferença em um dos momentos mais difíceis da vida. Em Santa Catarina, o acolhimento e a orientação às famílias também está presente na abordagem para a doação de tecidos oculares, inclusive nos casos de pacientes que morreram em decorrência do câncer. De janeiro a agosto de 2026, foram registradas 312 doações de tecido ocular no Estado. O Centro de Pesquisas Oncológicas (CEPON), unidade do Governo de Santa Catarina em Florianópolis, foi a instituição que mais realizou doações no período, com 44 registros.
Uma dessas histórias é de Meri Lúcia da Conceição, que perdeu a mãe no início de setembro. Antes de adoecer, ela havia manifestado o desejo de ser doadora de órgãos.
Durante o tratamento no CEPON, a família concentrou os esforços nos cuidados com a paciente. Após o falecimento, mesmo conhecendo a vontade da mãe, Meri não conseguiu pensar na possibilidade de doar. “Na hora, você não consegue raciocinar, por causa da dor da perda. É muito importante ter alguém que lembre disso para você”, relata.
Foi então que a enfermeira Francine Ferreira conversou com Meri e apresentou a possibilidade da doação de córneas. A abordagem ocorreu de forma acolhedora e respeitosa. “Ela me disse: ‘A gente tem um projeto de doação de córneas. Ela pode doar’. Na hora, veio tudo na minha cabeça. Lembrei que a minha mãe falava que poderia doar os órgãos dela”, conta Meri.
A decisão foi tomada naquele momento. Para ela, a forma como a profissional conduziu a conversa foi fundamental para compreender que, mesmo diante da perda, a mãe ainda poderia ajudar outras pessoas.“Eu nunca vou esquecer as palavras dela. Além de estar me amparando e cuidando de mim, ela disse que a minha mãe poderia ajudar duas pessoas a voltar a enxergar”, afirma.
O diretor-geral do CEPON, Dr. Alvin Laemmel, destaca que o processo de doação está relacionado à assistência e ao cuidado oferecido ao paciente e à família. “A doação de tecidos oculares é um gesto de solidariedade que pode transformar uma experiência de perda em uma oportunidade de ajudar outras pessoas. No CEPON, entendemos que acolher também significa oferecer informação, respeitar o tempo e a decisão da família e conduzir esse momento com sensibilidade e responsabilidade”, afirma.
Informação e acolhimento
A Comissão Hospitalar de Transplantes do CEPON (CHT-CEPON) atua há 13 anos no processo de doação de tecidos oculares. A equipe acompanha as situações elegíveis para doação e realiza a abordagem familiar, oferecendo informações sobre a possibilidade e respeitando a decisão dos familiares.
No país, a autorização para a doação de órgãos e tecidos depende dos familiares. Por isso, além de manifestar a vontade em vida, é importante conversar sobre o assunto com pessoas próximas. Uma doação de córneas pode beneficiar até duas pessoas. Em Santa Catarina, este ano até agosto, foram realizados 541 transplantes de córneas e 153 de esclera.
“O dever do enfermeiro é informar a família que existe essa possibilidade. Muitas vezes, a família não sabe que pode fazer essa doação. É um momento delicado, mas, quando você aborda com acolhimento e explica que existe a possibilidade de ajudar outras pessoas, isso também pode trazer conforto”, explica a enfermeira Francine Ferreira.
Pacientes oncológicos podem ser doadores em determinadas situações, embora existam critérios e contraindicações específicas, como alguns casos de doenças onco-hematológicas. Após a retirada, as córneas passam por avaliação e podem ser preservadas por até 15 dias.
Para Meri, autorizar a doação das córneas da mãe foi uma forma de dar continuidade a um desejo que ela já havia manifestado em vida. “Eu consigo falar para todo mundo que fiz a doação de córneas da minha mãe. Quanto mais pessoas souberem, melhor. O trabalho de vocês no hospital é muito bonito e muito importante”, afirma.
Neste Setembro Verde, o Estado reforça a importância de falar sobre doação de órgãos e tecidos ainda em vida. Manifestar a vontade é importante, mas compartilhá-la com a família é fundamental, já que são os familiares que autorizam a doação após a morte. Uma conversa pode ajudar a transformar um desejo em uma oportunidade para que outras pessoas voltem a enxergar.









